“Temos que convencer os médicos de que obesidade não é falta de caráter”

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Mais da metade da população brasileira está acima do peso ou obesa. Entre essas pessoas, cerca de oito milhões são obesas mórbidas. Em sete anos, a classe C se transformou no grupo de maior índice de obesidade no Brasil, e jovens entre 18 e 22 anos que, anteriormente eram poucos obesos, já são excessivamente pesados.

Médico prevê cenário futuro da obesidade no Brasil terrível

Thinkstock/Getty Images

Diante de um cenário desanimador, o endocrinologista, cirurgião e especialista em cirurgia bariátrica e metabólica, Luiz Vicente Berti, explica a razão de o mundo estar engordando e prevê um futuro desanimador.

iG: A população brasileira está engordando muito dentro de um curto período de tempo. Por quê?
Luiz Berti: O homem vivia em um mundo extremamente hostil no passado, a comida era pouca, de qualidade ruim e, na cadeia alimentar, era comparado com a hiena ou o abutre, que se alimentavam do que sobrava. O homem não tinha força física para brigar por um alimento melhor. Com isso, o carboidrato era um pedaço de raiz com casca e sujeira, que ele era obrigado a comer rápido, senão chegava outro bicho mais forte e levava.

A comida, então, era pouca e de difícil absorção, e se gastava muita energia para obter essa comida. O homem desenvolveu um gene que fez com que ele chegasse aos dias de hoje. Um gene que, mesmo tendo um pouquinho de comida, ele conseguia tirar toda a energia dela e conseguia sobreviver. Hoje, no entanto, o carboidrato que era uma raiz, casca e sujeira, virou a farinha e açúcar ou seus subprodutos que são muito melhores, como o pão, a massa, o doce e uma série de outras coisas. A proteína que era obtida por meio da caça é, hoje, entregue em casa sem nenhum tipo de preparo. Tenho uma comida melhor e não gasto energia para obtê-la, mas permaneço na capacidade genética de economizar energia, sendo que não preciso economizar mais.

Todo ser humano tem esse gene. Em alguns ele não funciona, em outros funciona mais, ou menos. Há uma porcentagem da população em que ele funciona muito, e isso faz com que 58% da população brasileira esteja acima do peso.

Arquivo pessoal

iG: Qual é a consequência de estar acima do peso?
Luiz Berti: Temos 25 milhões de obesos no Brasil. Desses, oito milhões são obesos mórbidos, ou seja, pessoas que já têm uma obesidade tão grave que trouxe uma infinidade de doenças atrás. O problema é que essa é uma doença de fundo genético que o meio ambiente atrapalha muito. Não tem um remédio que resolva isso, porque o corpo não reconhece a gordura como uma coisa ruim.

Se for ver um hospital hoje, muitos lá estão internados por um AVC, mas o evento aconteceu porque o paciente era obeso, teve hipertensão, diabetes, estragou as veias dele e levou ao derrame. Outros são por infarto, porque a obesidade contribuiu. Uns estão cortando o pé por causa do diabetes, outra consequência da obesidade. Mais uma parte está com problema de coluna e articulações, gastando milhares com operações no joelho, porque o peso estragou o joelho. Outra parte de mulheres está gastando dinheiro com inseminação artificial, mas se perdessem 10% do peso delas se transformariam em mulheres férteis. Não estamos falando de peso, e sim de uma doença.

iG: Por que é tão difícil perder peso?
Luiz Berti: 100% das pessoas que tratam de obesidade já fizeram dieta e menos de 30% fazem atividade física. O motivo? As nossas academias não são preparadas para uma pessoa perder peso. A academia é feita para cultuar o corpo, criar músculos, virar um atleta. A última coisa que uma pessoa precisa ao perder peso é ganhar músculo. Músculo pesa. Às vezes, você diminui um número de roupa, mas a balança continua a mesma, e a balança igual é um prejuízo psicológico muito grande no tratamento da obesidade.

iG: Como a cirurgia bariátrica pode melhorar a saúde em geral?
Luiz Berti: Antigamente, não tínhamos ideia da importância do aparelho digestivo, hoje ele é considerado o maior órgão endócrino do corpo, que produz mais de 300 hormônios, mas sabemos como funciona apenas uns cinco ou seis. Esses poucos que sabemos fazem um estrago absurdo em termos de alimentação. Quando a grelina está alta, por exemplo, a fome é muito grande. Quando se coloca comida dentro do estômago, ela abaixa e a pessoa tem sensação de saciedade. Uma das coisas que a cirurgia faz é diminuir esse hormônio.

Além disso, existem outros que, se o alimento chega a determinado espaço ou outro do intestino, esses hormônios sobem e fazem com que a pessoa tenha menos fome, fazem o pâncreas funcionar melhor, vão produzir mais insulina. Por isso que a gente começou na obesidade e fomos parar no tratamento do diabetes. É a chamada cirurgia metabólica.

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iG: Para os médicos indicarem a cirurgia metabólica para tratar o diabetes não é preciso ser obeso mórbido ou ter complicações decorrentes da gordura. Por que o Índice de Massa Corporal (IMC) não é um bom parâmetro?
Luiz Berti: O IMC é um índice calculado na base do ‘achismo’. Não houve nenhum trabalho científico para determiná-lo corretamente. Como aconteceu nos Estados Unidos, todo mundo acabou aceitando. Hoje, no Brasil, se opera acima dos 35, se a pessoa apresentar doenças e acima dos 40, mesmo sem apresentar comorbidades.

O diabetes, porém, não depende só da obesidade, mas de outros fatores. Eu posso operar uma pessoa com 30 ou 31, que está diabético e que já não consiga um tratamento com medicação. Mas eu não posso operar ele só pela obesidade, porque aí entra no cálculo de IMC, que me proibiria.

Antes, ao operar uma pessoa de IMC 35, observávamos que depois de 48 horas tínhamos de parar de dar o remédio para diabetes porque as taxas caíam muito. Fomos observando que alguns hormônios produzidos pelo intestino estavam ligados ao melhor funcionamento do pâncreas, então passamos a conseguir melhorar doenças de cunho metabólico. Não são todas, mas as mais importantes, como o diabetes tipo 2. Há 48 milhões de diabéticos tipo 2, e isso não depende só do IMC. Estamos tentando mostrar que a circunferência abdominal e risco cardiovascular podem ser somados, aí criaríamos um critério muito mais importante. O Mike Tyson, no auge da carreira dele, estava com 40 de IMC. Ele era obeso mórbido? Não, aquilo era tudo músculo.

Se pegarmos um indiano ou japonês, com 33 de IMC eles já são obesos mórbidos, porque são corpos diferentes. Como um índice pode valer para uma etnia, sendo que há tantas outras completamente diferentes?

iG: Você diz que a obesidade é doença. Como mudar o preconceito de que os obesos têm falta de vontade?
Luiz Berti: Primeiro, temos que convencer os médicos de que obesidade não é falta de caráter. Estamos engordando muito mais cedo do que sete anos atrás, e sete anos não é nada, por isso falamos que a prevenção é o grande caminho.

A primeira coisa é educar, a pessoa precisa entender que obesidade é doença, e uma doença séria. Temos que tratar o paciente não como ele teria falta de vontade, mas porque tem uma doença. Ele precisa de um médico que não coloque toda a culpa em cima dele.

Segundo, é preciso que o obeso tenha condição para fazer atividade física. Não adianta fazer campanha se não tem lugares apropriados. Além disso, dentro de casa, é preciso acabar com o preconceito que se sofre por parte dos parentes. 25% dizem que sofreram preconceito dentro de casa, mais até do que dos médicos. E aí vira aquela história: eu como, engordo, me deprimo, me criticam, fico mais deprimido, como mais, e aí vou entrando em um círculo negativo que é difícil sair.

iG: Qual é a sua expectativa sobre a obesidade para daqui 20 anos?
Luiz Berti: Terrível porque de tudo o que estou falando não vai acontecer nada. Não vão fazer nenhuma campanha, não se fará absolutamente nada. Há dois, três anos a prefeitura de SP tentou mudar a alimentação das escolas e o que virou? Nada.

Não se vê vontade politica e nem das pessoas. Não adianta cobrar o governo federal se não começar a mudar dentro de casa. Você não vai mudar o comportamento do filho se ele se espelha em você. Se você fica o dia inteiro em casa, vai ao shopping e depois dá sanduíche de fast-food para ele. Não seria muito melhor acordar de manhã e ir ao parque caminhar, mostrar que existe uma coisa chamada bicicleta, uma coisa chamada bola, que ele é capaz de jogar sem o uso da tecnologia?

Não se pode ser carrasco e nunca deixar o filho comer um hambúrguer, mas se a criança tem tendência a ser obesa, tem que saber que precisa fazer atividade física. Tem que entender, de maneira delicada e não preconceituosa, que ela vai comer sim, mas terá de fazer mais exercícios do que a irmãzinha que não tem tendência a engordar.

A legislação não deixa operar uma criança até que faça 16 anos, mas tem crianças de 10, 12 anos com 180 quilos, sofrendo bullying, não querem ir mais na escola porque sofrem todo tipo de preconceito. Mas tem que esperar até 16 anos para oferecer uma cirurgia.

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