Nova ‘moda’ entre jovens, uso do Xanax como droga recreativa causa mortes

Veja a matéria completa sobre Nova ‘moda’ entre jovens, uso do Xanax como droga recreativa causa mortes e fique por dentro de como cuidar da sua saúde.


Xanax, fármaco para tratamentos de distúrbios de ansiedade está sendo usado mundialmente como droga recreativa

Reprodução/Twitter

Usado para tratar distúrbios de ansiedade, o tarja preta
Xanax tem se tornado cada vez mais popular entre jovens de 13 a 23 anos, sendo encontrado tanto em farmácias como também em festas frequentadas por menores de idade. De acordo com a apuração realizada pela VICE
internacional, na série de reportagens “Xanxiety”, o uso irresponsável do fármaco já levou muitos adolescentes à morte por overdose, principalmente no Reino Unido e nos Estados Unidos. 

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Um exemplo disso é o rapper norte-americano Lil Peep, que morreu em novembro do ano passado após misturar Xanax
 e Fentanil, um potente analgésico sintético. A combinação letal, segundo autoridades de saúde, caso não leve o usuário à morte, pode causar danos como dependência química, além de quadros graves de demência e depressão.

No Brasil, a intitulada “cultura do Xanax” não tem a mesma potência estrondosa que a dos países citados acima, por enquanto, porém, um recente roubo do medicamento em uma farmácia de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, e o aumento do número de páginas e hashtags dedicadas à droga no País evidenciam a crescente procura dos jovens brasileiros pelo ansiolítico, que também atua como auxiliar para tratamentos contra a insônia.

A expansão da cultura do Xanax e seus efeitos


Lil Peep faleceu por overdose de alprazolam

Reprodução/Youtube

Assim como o conhecido “lean”, uma mistura à base de codeína, prometazina, refrigerante e balas de goma, o alprazolam
é fortemente exaltado por artistas do hip-hop, que contam experiências pessoais com a droga em suas composições.

O rapper americano de 17 anos, Lil Pump, é uma figura que aparece frequentemente consumindo o fármaco benzodiazepínico ( BZD
), que tem propriedades sedativas, em sua casa e em festas luxuosas. Quando da comemoração de um milhão de seguidores no Instagram, o rapaz agradeceu o carinho dos fãs encomendando um bolo de Xanax para a ocasião.

Lil Xan, outro cantor dos EUA de 21 anos, também é lembrado pelo uso contínuo do apelidado “benzo”, inclusive já chegou a assumir que é viciado. Em entrevistas a diferentes veículos locais, o jovem relata que tudo começou porque sofre com fortes crises de ansiedade, que foram diminuídas com tratamento e consumo controlado e acompanhado do ansiolítico.

“Minhas crises de ansiedade eram muito fortes, eu não conseguia fazer quase nada sem passar mal. O Xanax me ajudou, porém, depois que o tratamento terminou, eu quis continuar consumindo o remédio por acreditar que voltaria à estaca zero sem ele. Foi aí que conheci lojas online que o vendiam”, relatou.

Na mesma entrevista, o americano disse que batalha contra o “endeusamento” dos ‘xans’, como descreve, já que sofreu tanto contra o próprio vício. Ele diz que quando se deparou com o mercado ilegal da droga, em que o medicamento é adulterado e possui aparência diferente e colorida, decidiu usar o trabalho contra o movimento.

“É triste. Para me livrar do vício passei por momento difíceis que me fizeram criar o ‘Xanarchy’, uma espécie de movimento anti-alprazolam, para ajudar os jovens que estão na situação em que me encontrava. É algo fora do comum o que acontece com você, houve vezes em que eu tomei as pílulas e tudo foi apagado da minha cabeça”, relata. 

Como o alprazolam age no organismo e no cérebro?

O doutor em Ciências Fisiológicas e professor de Farmacologia, Thiago de Melo Costa Pereira, afirma que a sensação de “perda de memória” relatada por Lil Xan é comum após o uso desenfreado de alprazolam, induzindo o usuário à hipnose, à sonolência e até mesmo à inconsciência.

O especialista explica que os efeitos surgem em menos de uma hora depois do uso do medicamento, proporcionando forte relaxamento. Dependendo da dosagem, a percepção visual do indivíduo fica alterada, acontece a memória ‘em branco’ e o comportamento despersonalizado, o que leva a pessoa a agir como se estivesse bêbada.

Como todas as drogas tomadas por via oral, ela é absorvida pelo estômago, passando na membrana mucosa e agindo no fígado. Nesse trajeto, o BZD entra na corrente sanguínea e continua o caminho em direção ao cérebro, onde consegue “burlar” uma membrana que filtra substâncias perigosas, conhecida como barreira hematoencefálica.

“Embora essa barreira seja bastante seletiva, sua composição principal é formada por substâncias lipossolúveis, apolares ou simplesmente ‘solúveis em óleo’. Como o alprazolam possui boa miscibilidade em óleo, ele a atravessa facilmente”.

Vice-coordenadora da Comissão de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a médica Carla Bicca ressalta que os benzodiazepínicos amplificam os efeitos dos receptores GABA-A, assim como o álcool e as pílulas para dormir. Entretanto, realizam isso ao aumentar a eficácia de seu neurotransmissor, o que afeta o hipocampo, área cerebral importante para a conservação da memória. 


 Uso de alprazolam adulterado cresceu no UK

Reprodução/Twitter

Bicca afirma que o medicamento leva dias para deixar o organismo e que, se usado para fins recreativos, pode causar um desequilíbrio no cérebro. Neste estágio, ela explica, a droga se desprende dos receptores cerebrais e desencadeia quadros de dependência.

“O BZD de vida média é rapidamente absorvido pelo organismo e sua ação pode durar até 30 horas. Em idosos e crianças, o efeito pode ser paradoxal, elevando a inquietude e a insônia devido as particularidades da absorção”, aponta. 

“É importante ter em mente que sim, o alprazolam é uma droga
com grande potencial aditivo e pode ser fatal se misturada com álcool e opioides, gerando intoxicação, coma e overdose. Já no que se diz respeito às pessoas que o usam com frequência para tratamento médico, é recomendado que não parem de consumi-lo repentinamente e que procurem ajuda para evitar efeitos colaterais como convulsões e delírios”, completa a médica. 

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Os dois especialistas apontam que há uma falsa crença de que o fármaco
– que vicia mais que heroína e cocaína – não apresenta perigo e que, por isso, o uso deveria ser livre. Para reverter tal visão, ambos acreditam ser necessário que as pessoas conheçam como o “benzo” funciona, e que órgãos governamentais, sociedades médicas e farmacologistas, entre outras instituições, se unam para orientar sobre seus efeitos e riscos.

“Não devemos incentivar um tratamento que serve somente como ‘band-aid’ para os distúrbios cerebrais. Embora o alprazolam isolado seja uma substância segura, há diferentes composições sendo criadas que causam danos irreparáveis e passam ‘batidas’ pela fiscalização”, pontuam.

Jovens contam como é o uso da droga que vicia mais que heroína

Apesar da fiscalização e do requerimento de receita médica especial para adquirir o Xanax,  uma pesquisa realizada pela University of British Columbia (UBC) aponta que um novo mercado mundial nascido no Twitter e no Instagram vem permitindo o aumento de comerciantes que vendem ‘xans’ combinados com outros componentes, como o diclazepam, um análogo benzodiazepínico e funcional do diazepam usado para dores musculares.  

Procurados pela reportagem do
iG

, jovens britânicos, com faixa etária entre 14 e 22 anos, contam que “conseguir o fármaco online é muito mais fácil do que se pensa”, e que dependendo do vendedor, no momento de retirar o produto, é possível receber ‘tutoriais’ de consumo para “diminuir as chances de dependência química”.

“Eu usei alprazolam pela primeira vez durante uma festa na casa de um amigo. Me lembro de ter sentido um ‘vazio’, como se tudo o que me atormentasse sumisse. Como gostei da sensação, procurei modos para continuar usando, e encontrei contas no Instagram que vendem. Existe um Xanax vermelho chamado ‘ Devil
’, que eu sempre compro. Sei que é adulterado, mas ainda assim leva minha ‘inquietação’ embora. Um dia, pretendo parar de usar, mas, por enquanto, sinto que preciso. Sempre sofri com ansiedade, mas até hoje não procurei tratamento”, diz Kitt, de 15 anos.

Outro jovem britânico, que quis se identificar apenas como “R.D”, conta que costuma comprar o remédio falsificado pela internet ou diretamente com vendedores nas ruas. Ele diz que se preocupa com as misturas de drogas e que também sente medo de viciar, já que amigo dele se tornou uma espécie de “zumbi”, conforme descreve, por causa do uso abusivo do ansiolítico.

“Eu costumo ir às ‘festas do Xanax’, muito populares aqui no Reino Unido. Existem várias,  acontecem tanto em boates quanto nas casas de adolescentes. O consumo de ‘benzos’ é insano nesses lugares. Tenho um amigo que começou assim, como eu, e está inválido. Na verdade, não o vejo faz muito tempo. Fico preocupado de chegar a esse estágio, parecer um “zumbi” também. O ‘engraçado’ é que, quando a gente compra na rua, até consultoria de como usar acontece. Não temos garantia do que estamos colocando na boca, mas o preço é bem menor e até agora tem causado o mesmo efeito do ‘xan’ original”, alega.

À BBC
, a Pfizer, fabricante de Xanax como medicamento receitado, declarou estar “alarmada” pelo aumento de falsificações do produto. O laboratório diz ter realizado testes e identificado ácido, metais pesados e até cera para pisos em comprimidos adulterados.

O Instagram também foi questionado acerca do uso da plataforma para venda de substâncias ilegais. A empresa respondeu que “a compra e a venda de drogas são proibidas na rede social, e que removeria as contas suspeitas o mais rápido possível”.

Fiscalização de alprazolam em território nacional

No Brasil, as redes sociais não são tão utilizadas para a venda de benzodiazepínicos, mas há páginas no Facebook em que há publicações de fotos que o medicamento é visto como algo positivo, destacando a cultura propagada por rappers estrangeiros. Em comentários de uma publicação sobre o produto encontrada pela reportagem do
iG

, por exemplo, é possível ver adolescentes perguntando: “Como faço para comprar?”, “Alguém sabe em quais sites encontro?” e “Tem alguém no exterior que possa trazer para mim?”.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informa que o medicamento é vendido apenas com prescrição médica e não está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), definindo a aprovação para consumo apenas para tratamentos do distúrbio de ansiedade e de transtorno de pânico.

Além disso, a reguladora pontua que, em conjunto com a Polícia Federal, faz parte do Sistema de Comunicação do Projeto ION, da Organização das Nações Unidas (ONU), plataforma dedicada à comunicação em tempo real de incidentes envolvendo substâncias psicoativas. Ou seja, recebe notificações provenientes de diversos países sobre remessas internacionais suspeitas contendo tais substâncias.

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Quanto à possibilidade de aparecimento de novas substâncias de uso ilícito, como o Xanax
adulterado nos EUA e no Reino Unido, a Anvisa afirma utilizar o Sistema de Alerta Prévio da ONU ( Early Warning Advisory System
), que permite monitorar e obter informações antecipadas sobre o aparecimento e a prevalência destas drogas no mundo.                                         

O artigo Nova ‘moda’ entre jovens, uso do Xanax como droga recreativa causa mortes foi originalmente publicado em http://saude.ig.com.br/saude.ig.com.br/2018-06-19/xanax-cultura-overdose.html

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