“Me sentia tão sozinha e abandonada que acabei adoecendo também”

Veja a matéria completa sobre “Me sentia tão sozinha e abandonada que acabei adoecendo também” e fique por dentro de como cuidar da sua saúde.


Arquivo pessoal

Isabella, 37 anos, é herdeira de uma família de ricos empresários do Rio de Janeiro. Filha mais velha de João Flávio de Moraes, que já chegou a ocupar o posto de dirigente do poderoso grupo Supergasbras, ela diz ter pagado com a própria saúde o preço da história familiar ter o crack como um dos “longos capítulos”.

Veja no infográfico:
os efeitos do crack no corpo

João Flávio usou a pedra por 20 anos e perdeu amigos e prestígio durante as compulsivas pitadas. Isabella assistiu a tudo.

“Me sentia tão sozinha e abandonada que acabei adoecendo também”, diz Isabella Moraes, que desenvolveu o transtorno alimentar chamado anorexia e a depressão, como uma espécie de “pedido de socorro” para ser vista pelos pais.

Saiba mais sobre a anorexia na Enciclopédia da Saúde

Sobrevivente da chamada codependência, ela diz estar em constante recuperação neste período de quase 8 anos em que o pai não tem mais recaídas nas drogas. Reuniu a experiência no livro “Agora é viver”, lançado no próximo dia 18 pela editora Rocco.

Nem todos da família gostaram da exposição da trajetória familiar (o pai é um dos apoiadores), mas Isabella avalia que trazer o assunto é uma forma de alertar que dinheiro não é vacina contra a dependência química.

“Também quero abordar o papel da família, a importância do cuidado dos parentes e não só dos dependentes químicos. Cansei de ouvir que eu tinha de superar (a depressão e a anorexia) por ser rica e bonita”, conta ela.

Cursando jornalismo e dividindo a experiência no blog “Somos todos iguais”
, ela afirma que o sonho é se tornar uma porta-voz da causa. Leia a entrevista.

iG: Você também adoeceu por causa do crack usada pelo seu pai sem nunca ter usado nenhum tipo de droga?

Isabella Moraes:
Claro. Por causa da desestruturação familiar que eu vivi me sentia tão sozinha e abandonada que acabei adoecendo também, ainda muito pequena. Os filhos pagam o preço pelo uso de droga pelo pai ou pela mãe. Não há como uma criança crescer saudável em um lar onde não existem limites e o amor é dado de maneiras estranhas. Altos e baixos, cenas de uso de drogas, medos, assistir ao pai alterado… Isso não é ambiente para se viver, não é mesmo? Hoje, vejo que era o meu inconsciente querendo dizer aos meus pais: olhem, estou ficando doente, cuidem de mim…Hoje estou curada da anorexia e da depressão e após muita luta tenho uma vida feliz e saudável ao lado do meu filho.

iG As pessoas ainda ficam surpresas quando se deparam com histórias de famílias que, mesmo abastadas financeiramente, acabam envolvidas com drogas. Por que você acha que isso acontece?


Divulgação

Isabella Moraes:
Porque as pessoas em geral não tem a menor noção de que entrar para o mundo das drogas não é uma questão de escolha e, sim, uma fraqueza. Uma fraqueza forte. A pessoa experimenta droga como se fosse tomar um remédio para aliviar a dor. Só que se ela for dependente química, pode acabar se viciando e aí o caminho muitas vezes é sem volta. Não é porque uma pessoa é rica ou bonita que ela é feliz. Se ela procurou as drogas, tenha certeza, ela apenas buscou preencher um vazio. Dizer ou acreditar que quem usa droga é um sem-vergonha é um preconceito muito triste. Eu sei que existe de tudo, mas hoje sei que muitas vezes o doente cai no ciclo do vício sem perceber o mal que provoca. Falta muito conhecimento sobre este tema no Brasil.

iG: você já sentiu raiva do dinheiro que tinha?

Isabella Moraes:
Sim, várias vezes. Hoje vejo o dinheiro como uma necessidade para viver bem e educar meu filho. Claro que dinheiro é bom. Mas não é a receita para a felicidade, posso dizer isso com toda a certeza. A receita para a felicidade é encontrar o seu eu e aceitar-se como é. Assim se sentirá livre para viver como quer, sem se preocupar com o julgamento dos outros. É dessa forma que vivo hoje.

iG: Recentemente, tivemos o caso do cantor Chorão, que morreu de overdose. A mulher dele foi muito cobrada por ter se distanciado quando o uso da droga pelo cantor ficou mais intenso. Você também sentiu, de alguma forma, a cobrança por ser filha de um dependente químico?

Isabella Moraes:
 Meus irmãos, minha mãe e eu nunca nos distanciamos de meu pai. Até hoje cuidamos dele e estamos sempre com ele. Talvez se tivéssemos nos distanciado ele poderia ter acordado antes e, quem sabe, teria melhorado. Não há regras. Ele é uma pessoa maravilhosa que foi vítima do crack e da falta de limites. Tive cobranças dentro de casa sim. Diziam: ‘Isabella você é a filha mais velha, você tem que cuidar, salvar o seu pai’. Escuto isso desde pequena. Era um peso para mim, pois eu realmente acreditei que meu papel era cuidar de todos. Chegou uma hora em que, por amor a mim e por amor ao meu filho, saí de casa e fui cuidar de nós. Ainda estou correndo atrás do tempo que perdi não cuidando de mim. Estou recolhendo os meus caquinhos.

i G: Você perdoou seu pai? Foi difícil este processo? Tem algo que ainda machuca?

Isabella Moraes
: Sim, perdoei. Consegui perdoar, pois hoje tenho a clareza de que o estrago que ele fez não foi proposital. Ele é um homem bom, que ama seus filhos. Ele foi fraco, caiu em uma cilada, seus pais não deram limites. O processo de perdão foi difícil e ainda é. Um dia de cada vez. Mas eu amo tanto ele que isso se torna mais fácil. Tem muitas coisas que ainda me machucam. Mas hoje tenho a maturidade para lidar com a dor e os traumas que ainda carrego.

iG: Você vai lançar um livro contando a sua história, uma exposição que não foi bem aceita por parte de seus familiares. Quem da sua família é contrário ao livro e por que você acredita que a exposição pode trazer benefícios?

Isabella Moraes:
 Minha família é maravilhosa mas muitos ainda não superaram os traumas e, por isso, não aceitam essa exposição, o que eu entendo. Não tem nada sendo revelado por mim. O estrago foi feito há anos. Agora, estou apenas contando minha história, como eu vivi isso e, principalmente, como consegui superar. Vou, inclusive com meu livro, redimir minha família. Acredito que os benefícios serão grandes. Quem tem esses problemas psíquicos sempre tem vergonha de se expor.

iG: O nome do seu livro é “Agora é viver”, uma historia de codependência. Quando você acha que se sentiu pronta para a vida?

Isabella Moraes
: Acredito que desde que meu filho nasceu . Ele foi crescendo e eu também. João Flavio, meu filho (16 anos), me deu força, coragem e me ensinou o que é o verdadeiro amor. Hoje aos 37 anos e após muitas lutas me sinto preparada para apenas viver. Ser feliz e cuidar de mim.

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O artigo “Me sentia tão sozinha e abandonada que acabei adoecendo também” foi originalmente publicado em http://saude.ig.com.br/minhasaude/2013-04-17/me-sentia-tao-sozinha-e-abandonada-que-acabei-adoecendo-tambem.html

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