“Estou 100% curada e cabeluda”

Veja a matéria completa sobre “Estou 100% curada e
cabeluda” e fique por dentro de como cuidar da sua saúde.


Arquivo pessoal

A paulistana Cristina Andressa de Moraes, 22 anos, tem muito a comemorar. No último ano, além de iniciar num novo emprego, começar e terminar um namoro, ela descobriu, tratou e se curou de linfoma de Hodgkin, um câncer raro no sistema linfático. Foram 12 sessões de quimioterapia e mais 17 de radioterapia. Agora ela festeja: “estou 100% curada e cabeluda”.

A doença de Cristina é a mesma da personagem Nicole, interpretada por Marina Ruy Barbosa na novela das 9, Amor à vida, da Rede Globo. Assim como a órfã rica da trama de Walcyr Carrasco, Cristina teve de enfrentar uma doença grave em um período da vida em que a perspectiva da morte é apenas uma idéia longínqua.

Com o diagnóstico, a vida de Cristina ficou em suspenso. Os cabelos caíram e ela teve de aprender a conviver com enjoos após as sessões de 8 horas de quimioterapia, que duravam uns três dias e eram intensos.

“A minha imunidade estava muito baixa por causa da quimio e eu não podia ter contato com o público. Também tinha de fazer exames a toda hora, além de ir para o hospital de 15 em 15 dias e passar horas recebendo o tratamento na veia. Começava às 8 horas e terminava às três da tarde”, conta Cristina, que ficou dez meses afastada do trabalho de recepcionista em uma clínica no Tatuapé, zona leste de São Paulo. Agora, ela tem planos de voltar a cursar Fonoaudiologia.

Ao longo do tratamento, a jovem passou a tomar diversos medicamentos e a dormir na mesma cama da mãe, que ficou responsável por administrar os remédios ao longo da madrugada.

“Eu também tinha medo que ela morresse”, confessa, baixinho, Cleusa Cecília da Silva, a mãe.

Foi Cleusa quem cortou o cabelo da filha, “em etapas”. Primeiro na nuca e depois deixando só uma franja mais comprida.

Veja depoimento de Cristina sobre como enfrentar a doença:

“Lembra do Ronaldinho? Fiquei parecida. Ficar careca assim de uma vez só seria terrível para mim”, conta Cristina.

De manhã, a cama ficava cheia de tufos de cabelo – a perda é uma das conseqüências do tratamento.

“Minha mãe dizia ‘meu Deus, eu dormi com o Tony Ramos'”, conta Cristina rindo.

“Meu cabelo agora está igual ao do Gianecchini, você notou? Crespo e arrepiado. A quimio altera as células e o cabelo também muda.

O linfoma de Hodgkin atinge principalmente jovens entre 15 e 40 anos ou idosos com mais de 70, causando a proliferação de uma célula chamada linfócito B, um tipo de glóbulo branco responsável por combater infecções no corpo.

“O diagnóstico é relativamente fácil, no exame feito pelo patologista, se veem células binucleadas, com o formato de olhos de coruja. São células do linfócito B alteradas”, explica o oncologista Jacques Tabacof, membro do Comitê Científico Médico da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia.

Embora este linfoma seja uma doença com boas taxas de cura – 90% de chance, quando diagnosticada no início e 70% quando diagnosticada no segundo estágio – o perigo da doença está no alto risco que ela tem de se espalhar para outros órgãos do corpo.

“Mesmo com a alta curabilidade o paciente fica com muito medo e pouco esperançoso. O medo é normal. Todo mundo fica muito preocupado com o tratamento”, diz o especialista.

Reações diferentes

Em comum, Cristina e Nicole têm apenas a pouca idade e um histórico familiar repleto de casos de câncer. Nicole é uma menina rica e solitária, não tem amigos e perdeu os pais e os avós quando era ainda muito jovem. A personagem da novela se recusa, num primeiro momento, a fazer o tratamento.

“Eu acho que vão ter que dar um ‘up’ naquela menina. Ela é muito para baixo e desse jeito não vai aguentar a barra que é a doença”, comenta Cristina sobre a insegura Nicole.

Em apenas três momentos da entrevista Cristina assume que o ano que passou não foi fácil. Ela acredita que o que a curou, além do tratamento e do amparo da família, foi a forma como encarou a doença.

“Foi tudo muito rápido e eu precisava ir de um lado para o outro para conseguir um lugar que desse o diagnóstico mais rapidamente ou que fizesse a biópsia. Então era muita correria e não sobrou muito tempo para refletir. Além disso, eu queria me curar logo”, conta.

Cristina teve dois tumores no pescoço e outro no mediastino, na região do pulmão. Levou apenas um mês entre o dia que notou a bolinha no pescoço até receber o diagnóstico de linfoma de Hodgkin.

“Tive muita sorte. Meus chefes me orientaram. Uma moça que fez quimioterapia comigo levou uns seis meses até diagnosticar a doença.”

O início

Em novembro de 2010, após uma gripe muito forte, Cristina notou uma bolinha no pescoço. Orientada pelos donos da clínica onde trabalhava, fez uma biópsia que confirmou a doença.Cristina passou por uma batelada de exames e perambulou pelos hospitais até conseguir atendimento mais rápido.

“O SUS é bom, mas é muito demorado e esta doença exige pressa. Quanto antes melhor. Nesta história toda tivemos vários anjos que nos ajudaram. Eu já disse que pago a eles com sorrisos, pois dinheiro eu não tenho, não”, diz a mãe, Cleusa, agradecendo aos médicos da clínica onde a filha trabalha.

O oncologista Jacques Tabacof explica que o padrão de progressão da doença é muito conhecido.

“Primeiro aparecem gânglios acima do diafragma, normalmente na região do pescoço. Depois surgem no mediastino, no segundo estágio da doença, e então no abdômen”, explica.

“Logo as bolinhas cresceram e o meu pescoço, que antes era fininho, ficou como o do Anderson Silva”, diz Cristina, em uma gargalhada que não disfarça os olhos levemente cheios d’água. Não é fácil lembrar da situação mais difícil da doença: o diagnóstico.

“No começo não caiu a ficha. O médico foi direto e reto. Disse que tinha 99% de chance de ser câncer e provavelmente teria que fazer quimio”, conta. Naquele dia a mãe de Cristina ainda tentou amenizar a situação lembrando que ainda havia o 1%, quando o médico a cortou com um: “é, eu disse provavelmente”.

O diagnóstico foi muito duro para Cleusa, que por 16 anos havia trabalhado como escriturária do laboratório do mesmo hospital onde foi feita a biópsia. Neste momento, os ensinamentos do Kardecismo serviram de tábua de salvação.

“Disse para a minha filha que ela vai passar pelo que tem que passar, mas ela pode escolher passar chorando ou rindo. O melhor era enfrentar.”

Dor e onda ruim na quimio

Durante os sete meses de quimioterapia, as noites que antecediam a sessão de tratamento eram passadas quase que em claro.


Arquivo pessoal

“Eu tentava dormir o mais tarde possível para chegar bem cansada no hospital e dormir durante a quimio”, lembra. A tática servia para evitar que ela ouvisse as conversas durante a sessão.

“Usava fones de ouvido ou dormia para evitar que sofresse a influência do clima da sala. As pessoas só reclamavam e se questionavam que não era justo estarem passando por esta doença”, disse. Nem todos os dias era possível evitar a conversa.

“Uma vez falei para uma moça que não era questão de ser justo ou não justo, mas que era algo que estávamos passando e aí ela é que não quis mais conversar comigo”, lembra.

Outra tática usada para aguentar a barra da quimioterapia era ir sempre arrumada e maquiada para o hospital.

“Já estava toda inchada por causa da cortisona e sem cabelo. Eu precisava me ajudar! Usava muito rímel para os meus olhos inchados aparecerem mais. Também usava lenços bonitos e roupas estilosas”, conta.

“Era o fashion quimio”, debocha a mãe.

O enjoo era tão forte após a sessão de quimio que Cristina preferia ficar sozinha no quarto sem ver ninguém. E só de saber que ia passar por tanto mal-estar, ela já sofria antes mesmo das sessões iniciarem.

Cristina conta que uma vez uma enfermeira embrulhou o potinho com o remédio que ia ser injetado na veia e colou corações de papel no suporte do soro.

“Ela me disse que se o meu problema era ver o remédio, ele já estava resolvido”.

Outro momento complicado foi no Natal, quando ela teve que fazer o teste na medula óssea para saber se estava com leucemia.

“Dói muito. É uma dor que não passa. Tanto na hora em que injetam a agulha quanto nos dias seguintes. Minha mãe passou o Natal fazendo massagem nas minhas costas”, recorda.

No dia 3 de julho de 2012, finalmente, Cristina enfrentou a última sessão de quimio. Mesmo estando enjoadíssima ela fez questão de ouvir bem alto a animada música “The dog days are over”.

“Eu estava muito feliz. Depois foram só 17 sessões de radioterapia para selar o fim da doença de vez”, disse.

Mesmo curada “e cabeluda”, no entanto, Cristina ainda convive com um fantasma. De acordo com as estatísticas médicas, há 70% de chance de um paciente de Hodgkin desenvolver outro câncer ao longo da vida. Tabacof explica que a quimio pode causar outros tipos de câncer.

“A radioterapia tem um risco, principalmente em mulheres de causar um câncer de mama após 10 anos de tratamento, por causa lesão nas células”, disse.

Cristina sabe do risco. Foram 7 meses de quimioterapia e outro mês de radioterapia em que tomou radiação na região que vai do pescoço até o tórax.

“Minha médica disse que cada ano que passa a probabilidade de eu desenvolver um câncer é muito menor. Isso me deixa mais tranquila. Se eu tiver que passar por tudo o que passei de novo vou passar”, afirma, com a calma e a convicção de quem já enfrentou, e venceu, a perspectiva da morte.

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O artigo “Estou 100% curada e
cabeluda” foi originalmente publicado em http://saude.ig.com.br/minhasaude/2013-07-08/estou-100-curada-e-cabeluda.html

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