Controvérsia: “Meu Cabelo é Bom”

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Com esta história toda de Blogueira Shame e a explosão de blogs de moda no Brasil, as blogueiras estão agora se rebelando e mostrando ao público, às vezes, sem querer, quem elas realmente são. Em um debate no YouTube do Canal Vivo sobre blogs de moda mediado por Julia Petit, Priscilla Rezende (o verdadeiro nome da Tia Shame) fechou a conversa dizendo, “As pessoas não devem achar que a vida das blogueiras de moda é perfeita e que elas acordam maquiadas, de cabelo escovado.”

Em resposta ao debate, uma blogueira de beleza criticou a Julia Petit e Tia Shame no twitter, até mesmo usando palavrão. Ela twitou, “Eu acordo com o cabelo escovado! Desculpa, meu cabelo é bom!”

Eu não me importo com o barraco dela e de outras blogueiras, mas alegar que seu cabelo liso é bom, para mim é um absurdo que deve ser devidamente endereçado. Eu moro nos EUA há anos e já fui acusada de ter me tornado politicamente correta demais, por viver entre os gringos e seus melindres. Pode até ser, mas ao meu ver, falar que cabelo liso é bom é uma declaração racista.

Em um país que tem a segunda maior população negra do mundo, e onde a população negra e mulata (ou morena, ou parda, cafusa ou mestiça) é a maioria – compondo 49.6%, enquanto os que se definem como brancos compõem 49.4% – a mentalidade precisa mudar.

(A linda modelo acima é minha amiga de infância Mari Freitas.)

Desde Chica da Silva, a escrava que se tornou senhora, negros vêm sendo motivados a agir e parecer brancos. O Brasil teve até mesmo um processo de branqueamento após a abolição (eugenismo), quando o governo pagou europeus (alemães, italianos, etc) para imigrarem ao Brasil – com o objetivo de clarear os genes e a cultura, assim tornando o país mais “civilizado”.

Nos anos 30, essa prática perdeu força, graças a Gilberto Freyre e outros ativistas que defendiam as contribuições dos negros à sociedade. Freyre rompeu com a visão tradicional das relações raciais e propagou a ideia de que no Brasil existia uma democracia racial, ” Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena e/ou do negro.” Freyre realmente acreditava que a sociedade brasileira estava mais evoluída do que outras nações ao lidar com questões de raça e ele via nosso país como um paraíso multi cultural.

No entanto, a realidade é bem mais complexa e menos romântica. Ainda hoje, as novelas mostram apenas um ou dois personagens negros – raramente protagonistas. Cabelos alisados são os favoritos entre as mulheres, e é aceitável dizer que cabelo enrolado, crespo ou de “preto” é ruim. Mesmo a atriz Zezé Mota, que interpretou Chica da Silva no cinema, e chegou ao estrelado, admite que até muito recentemente, no Brasil, negros eram considerados feios.

Eu sei que é difícil aceitar que racismo existe no Brasil, mas não como nos EUA, onde há segregação e animosidade entre as raças.

Salvador, a cidade mais negra do Brasil, nunca teve um prefeito negro. Onde estão as super models negras do Brasil nas capas da Vogue? Ou as poderosas blogueiras de moda e beleza, formadoras de opinião, da raça negra?

Pode-se alegar que isso ocorre no Brasil devido à desigualdade social, pois negros, em sua maioria, possuem menor poder aquisitivo. A desigualdade na representação dos afro-brasileiros na mídia e na sociedade também contribui para este fato. Ao ir à Cidade de Deus, você irá notar que a pequena minoria de brancos de lá vivem melhor do que a imensa maioria negra. Negros ricos ainda são mal tratados no Brasil, um dos maiorias ativistas brasileiros, Abdias Nascimento, clama que a democracia racial no Brasil é uma grande piada, uma grande mentira.

Crescendo no Brasil, eu ouvi piadas de preto, assim como de português ou de loiras e sempre achei graça de todas – nunca me considerei racista. Como poderia? Eu mesma sou mestiça, descendente de portugueses, índios e negros. Mas confesso que minha vida foi mais fácil do que a do meus primos, que são mais mulatos. Por ser branquinha, meus professores na escola pública assumiam que eu era mais bem comportada e mais inteligente e me tratavam melhor. Quando tinha 16 anos e tentei conseguir um emprego na telefônica, eu fui selecionada, enquanto minha prima e melhor amiga, Érica, que tinha curso de computação e datilografia que eu não tinha, ficou para trás. Também sempre ouvia que tinha cabelo “bom”.

Mesmo assim, eu morria de vontade de ter os cabelos cacheados da Érica e fazia, sempre que tinha oportunidade, mil trancinhas para que eu pudesse acordar com os cabelos frizados. Cabelo cacheado é bom sim! E é com lágrimas nos olhos que eu escrevo que não é justo que cabelos crespos, cacheados e enrolados sejam vistos como inferiores. É com lágrimas nos olhos que eu relato que fiquei muito ofendida de ver esta blogueira proclamar que tem cabelos lisos, e consequentemente bons. É uma ofensa a mim, a minha família mestiça, as pessoas que amo que são da raça negra e que merecem mais espaço e respeito no Brasil e no mundo.

Quase todo brasileiro é mestiço, quase todos devem ter alguma porcentagem de índios, europeus, asiáticos e negros – geneticamente o Brasil é uma democracia racial, quem sabe um dia essa mistura estará refletida de forma justa em todas as camadas da sociedade?

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