“Assumir que o filho é dependente químico é a pior coisa para uma mãe”

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dependente químico é a pior coisa para uma mãe” e fique por dentro de como cuidar da sua saúde.


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Professora de adolescentes em Campinas (interior de SP), Luisimar Alavres encarava as drogas “como um problema dos outros” até encontrar maconha nas coisas do filho. Achou que era uma fase e que iria passar.

Foram 13 anos convivendo com os mais variados tipos de entorpecentes – crack, cocaína, ecstasy – e com a sensação de que só ela salvaria o filho.

“Dei espaço para o meu filho ser protagonista da própria recuperação”, diz ela, sobre a principal lição que aprendeu nos grupos terapêuticos que acolhem parentes dos dependentes químicos enquadrados no conceito de codependentes.

Hoje ela é voluntária do Amor Exigente (o principal grupo brasileiro voltado às famílias), continua dando aulas e vive o “só por hoje”, ensinamento vital para quem usa drogas e para quem ama e convive com um usuário.

Luisimar define um dia perfeito, como aquele que tem 24 horas “sem conflitos” ou “com conflitos solucionados” em 24 horas e agradece por ter se livrado do sabor “amargura” que tinha na boca quando contava a própria história. “Tenho orgulho da pessoa melhor que me tornei”.

iG: Como você percebeu que a droga fazia parte da sua família?

Luisimar:
Sou professora de português e as drogas sempre fizeram parte da temática das minhas aulas. Por estudar o tema, parecia que eu tinha uma imunidade a este problema. Foi então que meu filho, quando estava no 3º ano do ensino médio, começou a mudar de comportamento, ficou diferente, repetiu de ano. Eu só tinha visto droga em fotografias e achei um ‘matinho’ estranho nas coisas dele. Não reconheci na hora. Levei a uma delegacia próxima de casa e disseram que era maconha. No primeiro momento, não achei que era grave e aí os problemas começaram. Tinha certeza de que era uma fase, que iria passar. Ele tinha 16 anos. Hoje tem 29. Treze anos depois, ainda não passou. Maconha, cocaína, crack, ecstasy, tudo que você pode imaginar, passou na vida do meu filho e também fez parte da minha vida.

iG: Quando você percebeu que o seu comportamento com ele precisava mudar?

Luisimar: 
Desde o início, eu frequentei grupos de pais e familiares de dependentes químicos, nas reuniões do Amor Exigente. Mas não me reconhecia naquele ciclo da droga, não sentia que participava ativamente da dependência do meu filho. Caí no jogo da culpa e, de forma inconsciente, o meu comportamento alimentava o comportamento do meu filho e vice-versa. Você passa a ser feliz só quando ele é feliz. Eu passei a querer tomar atitudes por ele. Fiquei com a sensação de que eu, só eu, era capaz de salvá-lo. Mas quando você olha a dependência de dentro do olho do furacão, um ponto crucial passa despercebido: o dependente químico, sem perceber, busca o conflito para justificar o uso de drogas. Então, por mais que eu me esforçasse para fazer da minha casa um ambiente de paz, do nada, uma briga explosiva acontecia.

Eu achava que a solução e o controle estavam nas minhas mãos. A sensação era a mesma de apertar uma gelatina. E essas tentativas frustradas de manter uma paz falsa, frágil, só me davam culpa. Passei a atender a todas as vontades do meu filho. Quando ele se trancava no quarto, achava que ele estava seguro e quase não respirava na sala. Levantava 200 vezes, encostava o ouvido na porta para sentir que estava tudo bem. Então, vinha o vendaval violento. Ao meu filho, a mensagem era de que ele tinha a justificativa que queria para sair de casa e passar dias e dias sem aparecer, só usando drogas. A mim, restavam a culpa e a falsa ideia de que, em uma próxima vez, eu faria diferente e a briga não aconteceria.

iG: A sensação de culpa também atrapalhava a consciência de que você precisava mudar?

Luisimar: 
Assumir que o filho é dependente químico é pior coisa para uma mãe. É uma doença considerada um problema de caráter. Se ele tem rinite, todo mundo protege. Quando é usuário de droga, não há a compreensão de que se trata de uma doença. Trata-se como uma falha pessoal, da criação. A negação é o primeiro passo e eu fiz coisas horríveis, como ir até a casa de um amigo dele e aos berros dizer para a outra mãe que ela era responsável por tudo de ruim que tinha acontecido com o meu filho. Foi quando esgotei as minhas possibilidades que entendi que não dependia de mim. Ao contrário. Se ele não tivesse o papel principal no processo de recuperação dele, não iríamos sair do lugar. A codependencia, um termo que eu só aprendi depois, exacerba o amor e você fica cega. Você tem recaídas igual ao usuário de droga. É preciso entender quais são os limites e esse entendimento é doloroso, mas também libertador.

iG: Isso significa que você precisou se afastar do seu filho?

Luisimar: 
Quando os problemas com as drogas agravaram, eu tinha acabado de separar do meu marido. Meu filho foi para a internação compulsória (contra a vontade do usuário) e é uma sensação horrível. Você se sente sozinha, culpada. Ele saiu da primeira internação e voltou para as drogas. Desde então, foram repetidas idas e vindas. Não digo que me afastei, mas precisei mudar de postura. Aprendi a dizer e a entender que ou ele mudava de comportamento ou ele mudava de casa. Isso porque, em meio às chantagens, ele me dizia que se eu o deixasse fumar maconha dentro de casa, ele não iria mais embora. Não cedi. E defini o que queria para dentro da minha casa. Ele foi internado quatro vezes e nenhuma deu certo porque, em todas, ele havia decidido pelo tratamento por minha causa e não por causa prória. Quando eu e o pai dele deixamos espaço para ele ser protagonista da própria história, a coisa mudou de figura.

iG: Seu filho está limpo (sem usar drogas) há 10 meses. Honestamente, você voltou a confiar nele?

Luisimar: 
Eu confio na minha postura e sempre quando entendo ser cabível dou um voto de confiança a ele. Sei que ele esta se segurando, está apaixonado, resolveu morar com uma moça e tenho orgulho da vida com limites que ele leva agora. Mas também não sou ingênua e sei da dificuldade que ele tem de se organizar a longo prazo. Não é falta de confiança, mas não me frustro mais quando ele planeja, por exemplo, pagar uma conta em 10 prestações e lá na quarta ou quinta acaba recorrendo à minha ajuda porque se atrapalhou. Um dia de cada vez. Para ele e para mim.

iG: O seu amor por ele mudou?

Luisimar: 
Fragilidade amorosa eu não tenho mais, mas meu filho é o maior amor que eu sinto no mundo. A passionalidade eu perdi e ele compreende isso. Ele me reconhece como alguém segura, autônoma, sabe que pode contar comigo, sabe do meu amor e sabe que por ele eu me obriguei a ser uma pessoa melhor. O fato dele ter me tirado o chão fez com que eu buscasse um solo mais forte, menos arenoso. Meu filho sabe que para conviver com isso ele não pode me ferir. Eu não sinto mais um sabor amargo na minha boca ao contar essa história.

iG: Você chegou a adoecer fisicamente nesse período?

Luisimar: 
Dizer que não é mentira. Eu somatizo problemas na boca e na garganta, ranjo os dentes. É uma transferência inevitável. Você assiste o outro doente e quer adoecer também. Eu me sentia mal por estar bem. Viajar foi algo que eu nunca deixei de fazer, mesmo nos momentos mais turbulentos. Durante os trajetos, tinha crises de dores incríveis que agora são controladas. O “decolar” era complicadíssimo, ainda é. Mas é o meu prazer, momento em que eu relembro de cuidar de mim. Uma vida boa, que valoriza as pequenas coisas, é o maior presente que só eu posso me dar.

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