A  jovem diabética que morreu após estratégia drástica para perder peso

Veja a matéria completa sobre A  jovem diabética que morreu após estratégia drástica para perder peso e fique por dentro de como cuidar da sua saúde.

BBC

O diário escrito por Lisa foi uma recomendação dos médicos para que a jovem controlasse sua alimentação e o diabetes

Arquivo pessoal

Lisa Day foi diagnosticada com diabetes tipo 1 quando tinha 14 anos de idade. Por isso, precisava de injeções diárias de insulina e tinha de cuidar da dieta. Em 12 de setembro do ano passado, porém, ela morreu. Depois de sofrer anos com a diabulimia.

O termo, que ainda não foi reconhecido pelo mundo médico, refere-se aos diabéticos que deliberadamente se injetam com pouca insulina, com a intenção de perder peso. Os efeitos do descompasso no uso da medicação podem ser devastadores: cegueira, problemas renais, perda de cabelo e, como no caso de Lisa, morte precoce.

Katie Edwards, a irmã mais velha de Lisa, cedeu à BBC trechos do diário escrito pela caçula, para alertar a respeito desse distúrbio pouco conhecido. Lisa começou a escrever o diário pouco depois de ser diagnosticada com diabetes, em setembro de 2001.

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Veja como ela retratou a doença e suas dificuldades em lidar com a própria aparência, problema que a acompanhou ao longo de uma década:

26 de dezembro de 2001

“Me sinto realmente gorda. Quero perder peso. Acho que estou pesando uns 57 quilos”.

1º de janeiro de 2002

“Tenho que me injetar (insulina) daqui a pouco. Vou ligar para o Sam à noite para que nos encontremos amanhã. Acabo de me forçar a vomitar duas vezes”.

Enquanto vai passando as páginas do diário, Katie descreve Lisa. “Ela era minha irmãzinha. Divertida, tinha muitos amigos. Amava a vida, mas dava para notar que algo no fundo parecia perturbá-la. Era como se tivesse uma sombra triste perseguindo-a”.

Lisa com a mãe, Doreen, em 2007

Arquivo pessoal

13 de fevereiro de 2002

“Um dia sem uniforme na escola. Sinto-me tão GORDA. Todo mundo estava bem hoje, menos eu. Vomitei minha comida hoje. Preciso fazer rapidamente meu dever para a aula de artes”.

5 de março de 2002

“Estou muito contente e me sinto muito bem. Não como chocolate faz 4 dias e 6kg. Mike me enviou uma mensagem nesta noite e tudo está bem. Preciso aprender a não ficar vermelha (de vergonha). Estou pesando 55,8 kg.”.

“Acho que sou bulímica”.

Katie explica que não se deu conta de quão mal as coisas estavam com a irmã. Foi apenas recentemente que ela e mãe encontraram o diário.

“Não sei ao certo o que começou primeiro: a diabetes ou os problemas de alimentação”, diz Katie à BBC, enquanto vê fotos de Lisa.

“Mas sei que, antes de ser diabética, Lisa era completamente feliz. Comia o que quería e não tinha problema algum com comida. Quando a diagnosticaram, pediram que escrevesse um diário em que registrasse o que comia, bem como os níveis de açúcar em seu sangue”.

14 de março de 2002

“Estou me obrigando a vomitar, porque caso contrário me sinto culpada pelo que comi”.

Katie diz que a irmã estava

Arquivo pessoal

15 de março de 2002

“Me sinto tão gorda. Me odeio. Amanhã começo a trabalhar em um petshop. Há uma discoteca no FC amanhã. Vou com Holly”.

18 de março de 2002

“Tive uma ‘hipo’ (hipoglicemia) terrível na hora do almoço. Estava sentada com Mike e sua namorada. Não acho que ele ache que eu estou em boa forma”.

Quase todas as pessoas que têm diabetes tipo 1 sofrem de “hipo” em algum momento. A hipoglicemia ocorre quando o nível de glicose no sangue se reduz demais. Entre as pessoas que não sofrem de diabetes, a quantidade correta é produzida no momento indicado para que os níveis de glicose não subam ou baixem demais.

Mas, em quem tem diabetes tipo 1, a insulina, a comida e a atividade física às vezes não estão bem balanceadas, e os níveis de glicose são afetados.

30 de abril de 2002

“Fui dançar na escola hoje. E há tempo não provoco vômito! Vi Mike outra vez hoje. (Foi) Um dia muito chato”.

Naquele momento, Lisa não sabia que tinha diabulimia.

“Lisa foi mudando com a diabetes”, diz sua irmã. “Os diabéticos precisam controlar muito o que comem, e acho que Lisa acabou se preocupando demais”.

“Ela chegou ao ponto de não comer nenhum molho, nem manteiga. Quando comia, era só a metade de uma batata assada ou peixe cozido. Ela perdeu um bocado de peso”.

“Lembro-me de uma vez que mamãe lhe deu um sorvete e ela estava orgulhosa de tê-lo comido. Mas sentiu-se mal, porque o estômago rejeitou o sorvete, já que Lisa não vinha comendo o suficiente”, diz a irmã.

Uma lista de alimentação mostra Lisa comendo majoritariamente batatas assadas

Arquivo pessoal

29 de maio de 2002

“Odeio ser diabética. Não posso comer quando quero porque não quero ganhar mais peso”.

Katie se lembra de como Lisa foi mudando seus hábitos alimentares à medida que o tempo passava.

“No princípio, ela era esperta – não comia muito –, mas se deu conta de que, se não tomasse insulina, perderia peso de qualquer jeito. E poderia comer as coisas que não deveria”.

15 de agosto de 2002

“Tenho feito exercícios para o estômago e o bumbum, indo à academia todos os dias. Não posso fazer mais, ou vou morrer de esgotamento, mas de repente seria bom, porque estou tão gorda”.

“Melhor é queimar (as calorias do) meu jantar fazendo polichinelos. Por favor, me deixem morrer”.

Neste ponto de 2002, a família de Lisa não tinha se dado conta de quão ruim a situação estava.

“Os diabéticos estão a cargo de seus próprios cuidados. Eles sabem de quanta insulina precisam”, explica Kate.

“Minha família e eu presumimos que ela sabia o que estava fazendo. Não havia nada que pudéssemos fazer. Ela tinha sua vida nas próprias mãos”.

12 de novembro de 2002

“Não fui à escola hoje. Estou escrevendo este diário há um ano”.

“Durante o ano pasado fiquei bulímica, mas estou melhorando”.

“Perdi 9 quilos. Agora peso 47 kg”.

4 de dezembro de 2002

“Joe e Tom mandaram mensagens. Me disseram que estou em boa forma. BELEZA, minha perda de peso está dando resultados”.

Katie conta que sua irmã adorava fazer bolos e pratos indianos e que os comia sem problemas, pois não tomava insulina.

“Com o tempo, ela se deu conta de que podia aumentar o açúcar em seu sangue, não tomar insulina, comer o que queria e perder peso de todo o jeito. Ela não estava se entupindo de sobremesas ou refrigerantes, mas quando se tratava de comer, comia literalmente o que queria”.

No entanto, isso teve efeitos colaterais terríveis, segundo Katie, como problemas estomacais e nos pés.

“Está vendo que suas bochechas estão bem rosadas nessa foto (abaixo). Esse era um dos sinais de que ela não estava tomando a insulina”.

Arquivo pessoal

“Ela desenvolveu um problema estomacal e, quando comia, seu estômago não processava o alimento. Tinha doras terríveis e foi internada algumas vezes entre janeiro e abril do ano passado. Os médicos disseram que isso foi causado pelo uso incorreto da insulina, e isso a deprimiu”.

A anotação abaixo foi uma das últimas que Lisa fez no diário.

23 de junho de 2004

“Sinto que vou conseguir usar meu vestido vermelho outra vez e perder de seis a nove quilos até setembro”.

Doreen, a mãe de Lisa, ainda guarda ou vestido pelo qual a filha tinha uma obessão. “Lisa disse milhões de vezes que o vestido era uma meta para ela, o que é muito triste. Ela morria de vontade de voltar a vesti-lo”.

Nos anos seguintes, segundo Katie, Lisa viveu uma rotina de internações. “Mesmo quando ela sorria, sabíamos que tinha algo acontecendo. Eu sabia que ela tinha que tomar insulina, mas não o quão dedicada ela precisava ser”.

“E essa coisa de diabulimia, eu não sabia que outras pessoas também tinham. Isso só veio à tona depois que ela morreu. É muito triste triste: se Lisa tivesse recebido ajuda 10 anos atrás, ela poderia ainda estar conosco, porque teria se cuidado mais”.

Foto de família de Lisa, Katie e a mãe nas férias de 2009

Arquivo pessoal

Organizações como a britânica DWED (Diabéticos com Transtornos Alimentares) estão fazendo campanha para que a diabulimia seja reconhecida oficialmente como um transtorno alimentar e psicológico.

Estima-se um terço das jovens mulheres diagnosticadas com diabetes tipo 1 sofra de distúrbios alimentares ou se incomode com seu próprio peso.

“Ninguém sabe o quanto esse problema é grave nem como diagnosticá-lo”, diz a professora Khalida Ismail, que lidera a maior clínica de diabetes e distúrbios mentais britânico, na Universidade King´s College.

Na última segunda-feira, a morte da Lisa completou um ano. “Foi a semana mais horrível da minha vida”, relembra Katie.

O artigo A  jovem diabética que morreu após estratégia drástica para perder peso foi originalmente publicado em http://saude.ig.com.br/saude.ig.com.br/2016-09-12/a-jovem-diabetica-que-morreu-apos-estrategia-drastica-para-perder-peso.html

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